verbo um
poema-valise sobre a escrita
1. desfazer-me, finalmente, do corpo-criança e inaugurar a miragem desse novo corpo íntegro, amarrado com as tranças de uma sereia de sal, êxito hesito êxtase excito desfazer-me, ocupar o tamborete que já me aguarda tamborilar nele burilar sua madeira com a suavidade de um trovão fazer de cada suspiro um Ilú tombar do térreo do gozo do medo alçar voo içar verbos 2. quero um verbo infinito infinitésimo infinito que proclame um ato sem beiradas partícipes ou particípios que proclame uma rua sem calçadas nem ênclises ou precipícios verbo um que inicie o próprio tempo sem inícios 3. escrever um poema pré pós ignóbil colonial sem nenhuma mazela ou carro blindado passando pela calçada de uma escola um poema como se eu morasse na Finlândia e meus compatriotas não pegassem os restos da minha ceia do lixo um poema sem justificativa social sem bandeira, sem identidade um poema só, insubmisso a toda insubmissão liberto das páginas e das marcações emaranhado de letras flutuando num rio de águas cintilantes 4. no espelho diáfano da beira, me vejo imarginal
Andressa Nunes


